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    Saúde

    Por que tantas mulheres africanas clareiam a pele?

    adminDe admin4 de maio de 2026Nenhum comentário6 minutos lidos
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    Na Nigéria, 77% das mulheres usam produtos para clarear a pele — um índice muito superior a outras partes do mundo
    AFP via Getty Images
    Em certos países africanos, mais de 50% das mulheres usam regularmente produtos de clareamento da pele.
    Na África do Sul, este índice é de 32% e, na Nigéria, chega a 77% — um número muito maior do que em outras regiões do planeta.
    Estes tratamentos podem trazer consequências significativas. Os comprimidos e cremes de clareamento da pele são vendidos livremente e já foram relacionados a grave descoloramento da pele, lesões a órgãos, condições neurológicas e complicações perigosas durante cirurgias.
    Mas os pesquisadores ainda não sabem ao certo por que as mulheres usam esses produtos. E esta é uma questão importante, pois a resposta para essa questão deve orientar a criação de soluções de saúde pública.
    Uma explicação intuitiva é que as mulheres clareiam a pele porque estão insatisfeitas com a sua cor. Mas é surpreendentemente difícil confirmar esta hipótese.
    A maioria das pesquisas sobre a imagem do corpo depende de medidas explícitas — essencialmente, pesquisas que questionem diretamente às participantes como elas se sentem em relação à aparência.
    Mas o meu trabalho como pesquisadora de métodos combinados e psicóloga clínica indica que este método tem limites.
    Vídeos em alta no g1
    As pessoas nem sempre respondem a estas questões com precisão. Existem situações em que preferir ter pele mais clara pode parecer, ou ser considerado uma confissão autodepreciativa. Nestes casos, fortes pressões sociais definem como as pessoas respondem a este tipo de questionamento direto.
    Para solucionar o problema, meus colegas e eu abordamos a questão de outra forma.
    Os produtos de clareamento da pele já foram relacionados a diversas condições médicas
    AFP via Getty Images
    No nosso estudo recentemente publicado, verificamos se uma avaliação implícita, o Teste de Associação Implícita da Pele (Skin IAT, na sigla em inglês), pode revelar algo que as escalas de autoavaliação talvez não registrem.
    O exame é adaptado do Teste de Associação Implícita do psicólogo social Anthony Greenwald e seus colegas. Ele avalia a rapidez com que os participantes associam imagens de tons de pele claros e escuros a palavras positivas ou negativas.
    A lógica é simples. Se alguém associar automaticamente a pele clara a palavras positivas e a pele escura a termos negativos, esta associação aparece no seu tempo de resposta, mesmo se aquela pessoa nunca disser isso diretamente em uma pesquisa.
    Os desenvolvedores de medidas implícitas indicam que estes testes eliminam o viés da autoavaliação, determinando associações automáticas e instintivas, em vez de pedir crenças expressas, comportamentos ou avaliações de si próprio.
    Os testes de associação implícita podem contornar o filtro que mostra o que as pessoas se sentem confortáveis para admitir. E também foram empregados para avaliar outras preferências implícitas, como raça, peso, religião e idade.
    Nossas conclusões revelaram um desequilíbrio surpreendente: cerca de 79% dos participantes demonstraram preferência automática por pele mais clara no teste implícito, enquanto as pesquisas padrão do nosso estudo identificaram menos de um terço das pessoas pesquisadas.
    Estas conclusões são importantes por destacarem o fato de que as forças que levam ao clareamento da pele em todo o continente africano não podem ser reduzidas a uma simples construção psicológica.
    Suas raízes estão em séculos de história colonial, na circulação global de ideais de beleza eurocêntricos, em sistemas econômicos que relacionam o capital social à pele mais clara e em ambientes midiáticos que reforçam incessantemente estas hierarquias.
    Um projeto de pesquisa que enfrente esta complexidade deve ser igualmente multidimensional, combinando medidas implícitas e explícitas com abordagens qualitativas, que criem espaços para que as mulheres articulem, nos seus próprios termos, como a cor da pele influencia suas vidas.
    Avaliando as respostas inconscientes
    Nosso estudo incluiu uma amostra de 221 mulheres negras, predominantemente sul-africanas. Esta amostra representou a maior parcela de participantes para esta pesquisa online, dirigida a mulheres negras africanas de todo o continente.
    Pedimos a elas que preenchessem duas autoavaliações de satisfação com a cor da pele, além do Teste de Associação Implícita da Pele.
    Para poderem participar do estudo, as participantes precisaram se identificar como mulheres negras africanas, ter pelo menos 18 anos de idade e estar dispostas a responder questões sobre sua aparência física.
    Após o teste implícito, 78,5% demonstraram preferência por um pele mais clara. As duas autoavaliações identificaram percentuais muito menores (18,5% e 29,8%, respectivamente).
    O resultado do teste implícito no nosso estudo (78,5%) ficou mais próximo do limite superior dos índices de clareamento da pele no continente (77%, na Nigéria).
    Este desequilíbrio na avaliação é importante. Ele pode indicar que, para um número substancial de mulheres negras africanas, a preferência da cor da pele pode operar abaixo do nível consciente. Ou, talvez, abaixo do nível que elas se sentem confortáveis para expressar.
    Estas são mulheres que, em uma pesquisa, poderão responder que estão satisfeitas com sua pele, mas suas associações automáticas contam outra história.
    Os produtos de clareamento da pele já foram relacionados a diversas condições médicas
    AFP via Getty Images
    Pesquisas melhores
    Como pesquisadores, não estamos defendendo o abandono das autoavaliações. Elas registram questões como comportamentos conscientes, valores e crenças. Por isso, elas permanecem indispensáveis para muitas pesquisas.
    Na verdade, nossas conclusões indicam a necessidade de usar mais de um método para investigar o que os participantes realmente pensam e sentem.
    As avaliações implícitas examinam associações que podem operar abaixo do limite da reflexão deliberada.
    Entrevistas detalhadas, grupos focais e métodos baseados em comunidades podem revelar uma variada textura de experiências, de uma forma que nenhuma escala, implícita ou não, pode registrar.
    Por isso, os métodos mistos não são uma conciliação de ferramentas imperfeitas. Eles são a resposta apropriada a um fenômeno que é, ao mesmo tempo, estrutural, cultural e profundamente pessoal.
    Com os países africanos enfrentando as dimensões de saúde pública de uma prática comum, mas pouco compreendida, a comunidade de pesquisa tem a obrigação de fazer o seu melhor. Isso inclui o investimento em ferramentas de avaliação desenvolvidas especificamente para as mulheres negras africanas — e em conjunto com elas.
    Isso significa considerar a variedade regional. E também levar a sério a possibilidade de que aquilo que as mulheres contam sobre seus corpos nem sempre coincidem com seus sentimentos íntimos ou experiências inconscientes.
    * Oyenike Balogun é professora de psicologia da Universidade Bentley, nos Estados Unidos.
    Este artigo foi publicado originalmente no site de notícias acadêmicas The Conversation e republicado sob licença Creative Commons.

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