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    Saúde

    Beber muito álcool de vez em quando pode triplicar o risco de danos ao fígado em um terço da população, aponta estudo

    adminDe admin2 de abril de 2026Nenhum comentário7 minutos lidos
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    Beber muito álcool de vez em quando pode triplicar o risco de danos ao fígado em 1 terço da população, aponta estudo
    Adobe Stock
    Mesmo entre pessoas que bebem moderadamente, episódios pontuais de ingestão elevada de álcool, como em finais de semana, podem aumentar significativamente o risco de lesões hepáticas, segundo uma nova pesquisa da Universidade do Sul da Califórnia.
    O estudo indica que não é apenas a quantidade total de bebida ao longo do tempo que importa, mas também a forma como o consumo ocorre. Um em cada três adultos possui doença hepática esteatótica associada à disfunção metabólica (DHEM). Neste grupo de pessoas, indivíduos que concentram muitas doses em um único dia têm até três vezes mais chances de desenvolver fibrose hepática avançada, uma condição caracterizada por cicatrizes no fígado.
    A DHEM está associada a fatores como obesidade, diabetes tipo 2, hipertensão e colesterol alto — condições que já aumentam o risco de problemas no fígado.
    Padrão de consumo é determinante para o risco
    A pesquisa, publicada na revista “Gastroenterologia e Hepatologia Clínica”, analisou dados de mais de 8 mil adultos entre 2017 e 2023, a partir de um levantamento nacional de saúde dos Estados Unidos. Os cientistas compararam indivíduos com padrões diferentes de consumo de álcool, mesmo quando a quantidade total ingerida era semelhante.
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    Foram utilizados dados de adultos submetidos à elastografia hepática (exame de imagem parecido com uma ultrassonografia que mede a elasticidade do fígado).
    Entre 8.006 indivíduos, 4.571 tinham doença hepática esteatótica (DHE). Entre os casos de MASLD (doença hepática associada a fatores metabólicos), 15,9% apresentavam consumo episódico excessivo, associado a maior risco de fibrose significativa e avançada.
    O consumo episódico excessivo — definido como quatro ou mais doses em um dia para mulheres e cinco ou mais para homens, ao menos uma vez por mês — foi associado a um risco até 3 vezes maior de fibrose hepática avançada.
    Segundo os resultados, distribuir a ingestão ao longo da semana é menos prejudicial do que concentrar grandes quantidades em um único dia.
    Os pesquisadores observaram que adultos mais jovens e homens relataram com maior frequência o consumo excessivo episódico de álcool. Além disso, quanto maior o volume ingerido em uma única ocasião, maior a tendência ao desenvolvimento de fibrose hepática.
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    Sobrecarga do fígado e inflamação
    De acordo com os autores, ingerir grandes quantidades de álcool de uma só vez pode sobrecarregar o fígado, aumentando a inflamação e favorecendo o surgimento de cicatrizes no órgão.
    Esse efeito pode ocorrer tanto de forma direta quanto indireta, especialmente em pessoas que já possuem fatores de risco metabólicos.
    O hepatologista e professor titular de gastro-hepatologia da Faculdade de Medicina da Universidade Federal da Bahia, Raymundo Paraná, destaca que, para quem já tem uma doença hepática, não há nenhum dado científico que possa garantir uma dose mínima segura de álcool.
    “Toda vez que você faz uma ingestão alcoólica, você encharca mais o fígado de acetaldeído – um pró-inflamatório e um pró-fibrogênico – que pode aumentar a deposição de fibrose, cicatrizes no fígado. Isso faz o indivíduo evoluir para cirrose hepática e aumenta a inflamação que também estimula a fibrose”, explica o médico.
    Tendência de aumento preocupa especialistas
    O estudo também destaca que a doença hepática relacionada ao álcool mais que dobrou nas últimas duas décadas. Entre as possíveis causas estão o aumento do consumo durante a pandemia e o crescimento de condições como obesidade e diabetes.
    Os pesquisadores alertam que o comportamento de beber muito em ocasiões pontuais é comum e precisa ser mais considerado por médicos e pela população. Mais da metade dos adultos analisados relataram esse padrão.
    Para os autores, os resultados reforçam a necessidade de repensar não apenas o quanto se bebe, mas como o consumo acontece.
    Mesmo quem se considera um bebedor moderado pode estar exposto a riscos elevados ao concentrar a ingestão de álcool em poucos momentos.
    Paraná acrescenta ainda que o álcool altera também as células do sistema imunológico, aumentando o risco de tumores.
    “O álcool diminui as células de vigilância para tumores e o paciente com doença hepática esteatótica tem maior risco. Quando o paciente já tem uma doença hepática, a orientação é que reduza o máximo e pare de beber”, afirma.
    Além disso, o álcool altera o perfil lipídico do paciente, aumenta triglicerídeos e o colesterol LDL. Por isso, ele pode piorar desfechos não só hepáticos, mas também cardiovasculares.
    “Esses desfechos cardiovasculares são muito mais importantes do ponto de vista de risco de vida em curto prazo, em um paciente que tem síndrome metabólica esteatose hepática, do que o próprio risco hepático”, alerta Paraná.
    Abstinência de álcool pode reverter complicações mesmo em casos avançados de cirrose
    Outro estudo internacional já indicou que parar de beber pode não apenas frear, mas também reverter danos graves no fígado — inclusive em pacientes com cirrose avançada.
    A pesquisa acompanhou 633 pacientes com cirrose alcoólica em 17 centros especializados na Europa e na Ásia e apontou que a abstinência completa e mantida pode levar à recuperação funcional do órgão e à resolução de complicações em até um terço dos casos.
    Ao longo de cinco anos, cerca de um terço dos pacientes apresentou recompensação completa — ou seja, deixou de ter complicações e recuperou a função hepática.
    A cirrose hepática, marcada pela cicatrização progressiva do fígado, é frequentemente causada pelo consumo excessivo de álcool e pode levar a complicações graves, como acúmulo de líquido no abdômen (ascite), alterações neurológicas (encefalopatia) e sangramentos digestivos (hemorragia varicosa).
    Tradicionalmente, o surgimento dessas complicações — chamadas de descompensação — era visto como um ponto sem retorno na doença. Mas os novos dados desafiam essa visão, mostrando que, mesmo em fases avançadas da doença, o quadro pode ser revertido.
    O estudo reforça que a abstinência completa e permanente de álcool é a intervenção mais eficaz para doenças hepáticas associadas ao consumo.
    Ao mesmo tempo, os autores alertam para a importância de políticas públicas e suporte estruturado para ajudar pacientes a manterem esse comportamento.
    Segundo os pesquisadores, recaídas no consumo de álcool pioram significativamente o prognóstico e podem aumentar tanto a mortalidade quanto os custos do tratamento de complicações avançadas.
    ⚠️ Síndrome de abstinência alcoólica
    Especialistas alertam que indivíduos que já têm uma relação de dependência com álcool, chamada de transtorno por uso de álcool, têm risco de desenvolvimento da síndrome de abstinência alcoólica quando decidem parar de beber.
    Ao parar, a pessoa se sente mal, em vez de melhor. Ela pode ter palpitações, sudorese, agitação, irritação, inquietude, convulsões e até mesmo alucinações.
    Mas a síndrome de abstinência pode ser evitada ou precocemente identificada e tratada. Por isso, o ideal é que essas pessoas procurem a assistência de um médico antes de decidir parar de beber. Dependendo do caso, esse risco pode ser muito alto e a síndrome, bastante grave.
    Um indício de risco de síndrome ocorre quando a pessoa tenta ficar sem beber e não consegue, precisando consumir cada vez mais cedo porque se sente mal, inclusive com tremedeira pela manhã, por exemplo.
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